Publicado originalmente por Érica Georgino no Blog da Cosac Naify em outubro de 2010.

Affonso H. de Lima Barreto, 38 anos, jornalista, solteiro. Diagnóstico: alcoolismo. A ficha acima ilustra o drama pessoal de Lima Barreto (1881-1922), internado no Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, entre o natal de 1919 e fevereiro de 1920. A experiência, documentada em Diário do Hospício, foi resgatada recentemente pela Cosac Naify e publicada conjuntamente com Ocemitério dos vivos, novela inacabada em que o autor tratou, na ficção, o drama da loucura vivenciada no sanatório.

Reunidos em um único volume, Diário do Hospício e O cemitério dos vivos foram lançados em 20 de setembro na Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro, em debate com a participação de Augusto Massi, editor e organizador do livro, Beatriz Resende, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UERJ, e mediação de Guilherme Freitas, jornalista do caderno Prosa & Verso, d’O Globo.

Segundo Massi, Lima Barreto era essencialmente um questionador da sociedade. “O que vemos em suas cartas é que ele adotava uma postura de enfrentamento – no modo de se vestir e de provocar as pessoas. Houve um episódio curioso em que estava muito mal vestido, sujo, quando um poeta ou escritor da época encontrou-o na rua: ‘Lima, vem cá, vou comprar um chapéu pra você’. O conhecido entrou numa loja e comprou um chapéu maravilhoso. Depois, quando caminhava sozinho, Lima passou por uma esquina e, diante de um homem muito pobre, trocou novamente o chapéu. Contou isso mais tarde, em uma carta escrita para Antonio Loureira dos Santos, grande amigo que o acompanhou até o final da vida: ‘Olha, eu sempre incomodo porque faço de propósito. Deixo a roupa ficar suja mesmo porque não quero passar por doutor, não quero agradar a esses caras. Eu quero ser um incômodo’”.

Ouça, a seguir, a íntegra do debate: