Arte Fórum

O Projeto teve o objetivo de reunir a reflexão teórica e a produção artística de estudantes da UFRJ e de outras universidades, além de apresentar jovens artistas e grupos que já começam a despontar na cena cultural.

Foram realizadas exposições, conferências, interferências, performances, intervenções e ocupações, sempre tendo como foco a questão da transversalidade e as intersecções na arte por meio de suas diversas linguagens, como a música, a literatura, as artes plásticas, o cinema, a televisão, o vídeo, a dança e o teatro, bem como pelo uso de suas ferramentas multimídia e das novas tecnologias.

A curadoria foi composta por cinco núcleos. Os curadores são pesquisadores e professores da UFRJ com reconhecida trajetória: Beatriz Resende e Denilson Lopes; Cristiane Costa e Cecilia Giannetti (Núcleo de Literatura Digital); Ângela Leite Lopes e Lara Seidler (Núcleo Performance); Katia Maciel e Luiza Crosman (Núcleo Transcinema); Samuel Araújo e Fernanda Cheferrino (Núcleo Paisagens Sonoras); Glória Ferreira e Izabela Pucu (Núcleo Instalações).
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Arte contemporânea invade a UFRJ  ArteForum reúne acadêmicos, pesquisadores, escritores e artistas com o objetivo de promover um diálogo entre pensamento e manifestações de arte

Publicado originalmente por Daniela Oliveira no site do Globo Universidade em 14/06/2011. 

Daniel Link (Foto: Renato Velasco / Divulgação)
O crítico literário Daniel Link abriu o ArteForum
(Foto: Renato Velasco / Divulgação)

 

Um evento plural, multimidiático, com uma bandeira em comum: a arte como forma de expressão. Esse foi o mote do festival ArteForum, que aconteceu nos dias 4 e 5 de junho, no campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Durante dois dias, dezenas de atividades apresentaram múltiplas linguagens e manifestações artísticas e culturais, em cinco focos principais: literatura digital, performance, transcinema, paisagens sonoras e instalações. Toda essa efervescência cultural foi pontuada por intervenções críticas, de convidados nacionais e internacionais.

O crítico literário Daniel Link, professor da Universidade de Buenos Aires, abriu a série de intervenções críticas, na manhã de sábado, com uma provocação sobre as transformações tecnológicas atuais e suas implicações na produção artística.

Para ele, plataformas como o YouTube possibilitam não apenas a reprodução de formas já conhecidas, mas também a potencialização da arte. “No YouTube há formas de arte. Ali se alcançam dimensões aonde museus e instituições de arte não podem chegar sem falsificar a história e a lógica do mundo”, enfatiza.

Link recuperou a afirmação do historiador Eric Hobsbawm de que o período pós-guerra e a cultura pop equivalem ao Neolítico – devido às mudanças que esses momentos da história ocasionaram nas condições de vida. Mas, a seu ver, enquanto o Neolítico teve seu fim, a cultura pop caminha para o YouTube, lugar de perpetuação eterna – um Neolítico superior.

O também argentino Jorge La Ferla, especialista em arte e mídia audiovisual, fez uma reflexão sobre videoarte. Ele ressaltou que, com a disseminação dos equipamentos portáteis nos anos 80, o vídeo saiu do monitor da TV e passou a ocupar espaços públicos como museus e galerias.

“Artistas ligados ao teatro e à pintura, entre outras artes, tomaram o vídeo como espaço de criação”, explicou Ferla. Essa “digitalização compulsiva” resulta, entretanto, na criação de obras que não se identificam com o produto original. “Pensar o vídeo hoje é pensar que a imagem original não existe, mas sim uma imagem calculada”, afirmou o pesquisador.

Manifestações culturais

Para ilustrar os diferentes usos das tecnologias de produção sonora e audiovisual, a pesquisadora colombiana Ana María Ochoa, professora da Universidade de Columbia (EUA), apresentou as experiências de promoção da música champeta em Cartagena das Índias e a produção de vídeos por indígenas na Serra Nevada de Santa Marta, no norte da Colômbia.

A champeta criolla, explicou Ana María, é um estilo que mescla a música africana – que chegou ao Caribe nos anos 50/60, em vinis levados para a região por marinheiros – e ritmos caribenhos. Hoje, o som original é composto por anúncios e diferentes elementos acústicos, e a música é tocada em volume máximo, para afetar vibracionalmente os corpos. “Não há como conceber o modo de produção da champeta sem considerar a questão acústica. As duas vertentes estão intimamente relacionadas”, explica a pesquisadora.

No caso dos indígenas de Serra Nevada, a impossibilidade está em separar a música dos sons da natureza. “Percebemos um forte intercâmbio entre o mundo sonoro dos animais e dos homens nos vídeos produzidos em aldeias indígenas”, diz Ana María.

Ela apresentou parte de um documentário em que indígenas vão à região da Serra Nevada de Santa Marta, no norte da Colômbia, para ouvir os mamos, anciãos espirituais, sobre ambiente, terra e cultura. A presença do sonoro, no registro em vídeo dos rituais anciãos, marca a tradição em meio à modernidade das tecnologias utilizadas na gravação.

Multiatividades

Globo Universidade - ArteFórum (Foto: Renato Velasco / Divulgação)
Projeto Mil Casmurros no ArteForum
(Foto: Renato Velasco / Divulgação)

 

Além de acompanhar as intervenções críticas, os participantes do ArteForum puderam interagir com instalações e assistir a performances individuais ou encenações coletivas, espalhadas por todo o Palácio Universitário. Os visitantes podiam, por exemplo, simular uma cantoria debaixo de um chuveiro que emitia a voz de anônimos, ou esbarrar no casal que passeava com guarda-chuvas que reproduziam o som de água caindo.

Uma das atividades mais concorridas foi o Sarau de Avatares e Heterônimos, que aliou literatura, vídeo e tecnologia. Nele, os convidados puderam apresentar suas criações – poemas, contos ou até mesmo composições musicais – ao mesmo tempo em que interagiam com seus avatares nas duas telas que compunham o espaço.

Os visitantes puderam também explorar o projeto “Mil Casmurros”, realizado em 2009 pela TV Globo, e que propôs a leitura coletiva do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Já quem enfrentou o frio na manhã de domingo assistiu à performance da Cyclophonica, única orquestra de câmara de bicicletas do mundo.

Teoria em meio à interação

Ao abrir as intervenções críticas do segundo dia de evento, o artista plástico e professor britânico Richard Colson falou sobre o enfraquecimento das fronteiras das sensações por conta das novas tecnologias. A arte digital, explicou, permite cada vez mais uma simbiose entre diferentes sentidos, ampliando a consciência do que vemos e aprofundando nossas sensações.

Ele mostrou alguns experimentos na área de neurociência que buscam reverter distúrbios relacionados às sensações. Em um deles, pacientes com artrite viam a imagem de seus dedos sendo alongados e relatavam sensação de alívio da dor.

“Experiências como essa mostram como um sentido pode evocar outro e transferir a sensação de um campo de ação para outro. Os avanços tecnológicos facilitaram essas interrelações”, observa Colson.

Steven Shaviro no ArteForum, na UFRJ (Foto: Renato Velasco / Divulgação)
Steven Shaviro no ArteForum, na UFRJ
(Foto: Renato Velasco / Divulgação)

 

Em uma intervenção mais teórica, o crítico norte-americano Steven Shaviro propôs uma reflexão acerca das relações entre corpo, objetos e tecnologias, com base no pensamento de teóricos como Marshall McLuhan, Gilles Deleuze, Graham Harman e Alfred Whitehead.

Ao tratar sobre o “universo das coisas”, Shaviro instigou o pensamento sobre a vida dos objetos e o modo como nos relacionamos com eles. Essa aliança entre corpo e objeto mostra como as coisas tornam-se permanentes extensões de nós mesmos, mas subordinadas a nossa vontade.

Ciência e arte

A interação entre arte, ciência e indústria foi tema da intervenção do filósofo, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e especialista em arte e cidade Nelson Brissac. Autor do recém-lançado livro “Paisagens Críticas – Robert Smithson, arte, ciência e indústria”, Brissac fez uma breve análise da obra do artista norte-americano, famoso por seus trabalhos com a chamada “arte da terra”, que permite uma relação direta com o ambiente natural.

O filósofo apresentou o filme “Spiral Jetty”, dirigido pelo próprio Smithson, sobre seu trabalho mais conhecido – um cais de pedras em espiral construído, em 1970, no Great Salt Lake, Utah, EUA.

Além de relacionar ciência de ponta e indústria, especialmente na área de mineração, o trabalho de Smithson propõe uma reflexão sobre o uso de produtos e da lógica industrial – uniforme, planar e linear – na arte. Para Nelson Brissac, o desafio atual dos jovens artistas é trabalham com padrões ainda mais complexos e fechados.

“Quem lida hoje com programas e dispositivos tecnológicos, principalmente os que trabalham com arte digital, sabe que é muito difícil interferir na programação dos softwares. Os artistas são cada vez mais consumidores desses produtos, sem a menor condição de interagir com eles”, observou o filósofo.

Encerrando o evento, o artista plástico e escritor Nuno Ramos apresentou, na noite de domingo, uma performance inspirada no conto “O Poço e o Pêndulo”, de Edgard Alan Poe. Durante a leitura de trechos dos livros de Nuno, as palavras poço e pêndulo acionavam o canto de dona Inah, sambista de São Paulo, a percussão do artista plástico e compositor Eduardo Clima e uma instalação sonora que repetia diferentes termos e expressões.­

Após a performance, a crítica literária e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa Flora Süssekind dialogou com o Nuno Ramos sobre aspectos de sua obra e seu modo de produção.

O evento ArteForum foi realizado pelo Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, com apoio do Globo Universidade. A organização ficou sob responsabilidade de Beatriz Rezende e Denilson Lopes, respectivamente coordenadora e superintendente de Difusão Cultural do Fórum.