Publicado originalmente no Mais!, da Folha de S. Paulo, em julho de 2007.

“A Filha do Canibal” e “Fica Comigo Esta Noite” apontam rumos opostos à ficção escrita por mulheres 

Dois livros escritos por autoras ibéricas contemporâneas acabam de chegar ao Brasil. Produções de longe-perto.

“A Filha do Canibal”, de Rosa Montero, espanhola nascida em Madri em 1951, e “Fica Comigo Esta Noite”, de Inês Pedrosa, portuguesa nascida em 1962.

Ambas são bem conhecidas no Brasil, ambas nos conhecem bem. Duas mulheres basicamente da mesma geração, provavelmente com vivências nos mundos da literatura, da arte, dos mundos de intelectuais e de jornalistas não muito diferentes.

Temas bastante semelhantes aparecem nos textos: amores, solidão, violência entre amantes, temor do envelhecimento e, o que merece nota especial, o rescaldo das longas ditaduras que ocuparam seus países.

No entanto dificilmente o trato literário dado a esses temas poderia ser tão diferente.

Comecemos por Rosa Montero. Iniciados no jogo de identidades, de verdades e mentiras, pelo interessantíssimo “A Louca da Casa”, temos alguma surpresa ao nos depararmos com uma narrativa que faz as vezes de romance policial, capaz de produzir suspense em torno do seqüestro do maçante burocrata e marido de Lúcia Romero, uma quarentona em crise, autora de livros infantis que nem ela agüenta.

Humor

Para deslindar a intriga, a narradora se junta ao vizinho, velho anarquista na casa dos 80 anos, dono de uma pistola de antes da Guerra Civil Espanhola, e a um jovem de 22 anos, inútil, desempregado e cheio de hormônios em liberdade.

Essa espécie de “Três Patetas” irá enfrentar os supostos seqüestradores, o Orgulho Operário, e a polícia, tomada por uma corrupção que chega aos mais altos postos do país. Não falta humor à narrativa e aí está o primeiro ponto de destaque.

Em seu estudo sobre a literatura e a cultura americanas “A Very Serious Thing” [Uma Coisa Muito Séria], Nancy A. Walker procura encontrar humor em obras de mulheres.

Logo de saída, aponta para a dificuldade do cultivo do cômico por essa “minoria”. A razão básica é que se supõe que as mulheres não têm e não devem ter humor, sobretudo o humor escrito.
Tiramos daí duas hipóteses.

Ou é verdade, e constata-se que a mulher (ainda) não tem lá muitas razões para sair rindo da vida; ou é tudo mito, as mulheres são engraçadíssimas, mas não cultivam o humor para não perder a difícil pose de escritoras de importância.

Auto-ironia

Rosa Montero mostra-se grande mestre do humor e, mais do que isso, se utiliza da auto-ironia, do deboche de sua própria personagem de forma deliciosa.

Já é tempo de reconhecermos que literatura e arte, como afirmava Brecht com grande ênfase, podem perfeitamente servir como divertimento sem perder a aura.

Aqui o humor se transforma em ferramenta dessacralizadora.

Em passagem antológica, Lúcia, cheia de tesão pelo jovem desprovido de quase tudo, num quarto de hotel, constata que a jovem que fora capaz de viajar um mês inteiro com um par de jeans e umas camisetas se tornara a portadora de fantástico arsenal de badulaques indispensáveis à sobrevivência de uma mulher.

Que quarentona pode dispensar, mesmo nas mais breves viagens, cremes, anti-sépticos, mil líqüidos?

Confessa Lúcia: “De uma vez me enganei e passei estimulante para pêlos no bigode e inibidor no couro cabeludo e fiquei uma semana sem sair de casa”.

À medida que os relatos do ex-anarquista, ex-toureiro, ex-combatente se mesclam à percepção da banalidade do casamento sem amor, o romance vai sendo atravessado por uma tristeza fina, tão mais cortante quanto mais desprovida de lamúrias.

Assim, é a implicância com as crianças birrentas com quem cruza que faz mais forte o relato da perda da filha, ainda no ventre, perfurada pelos mesmos ferros que lhe arrancaram os dentes e a fazem usar hilariante dentadura.

São essas combinações inesperadas que fazem o mérito da narrativa de Rosa Montero e lhe atribuem um espaço peculiar entre as autoras que assinam com nomes de mulheres.

Sensibilidade

É imenso o contraste com o tom dos contos de “Fica Comigo Esta Noite” (mesmo título da música do nosso brega romântico Nelson Gonçalves).

Inês Pedrosa escreve magnificamente. Usa metáforas de sensibilidade extrema, é capaz de referências literárias e artísticas sofisticadas. Mas talvez, nesta obra, esteja justamente aí o problema.
Nas narrativas curtas, a escrita aparece excessivamente preocupada com a bela escrita.

Em “Um Amor na Cidade”, a frase do início dá o tom: “Delicadeza e exactidão”. Na delicadeza está o mérito e o pecado do livro.

Tudo aparece cercado de bom gosto demais, como na família de intelectuais solitários em “Fica Comigo Esta Noite”. Mesmo o assédio sexual de um tio a uma menina de oito anos é quase delicado: “Queixei-me um bocadinho, chorei sem fazer barulho”.

A miséria absoluta de uma mendiga russa e sua filha moribunda acaba nas ruas de Paris, perto do Natal.

E a bela escritura ofusca o que seria uma dor intensa, insuportável. “Há apenas a dor, cintilando como um clarão no chumbo do céu, chuva de estrelas cadentes sem história nem mártires reconhecíveis.”

Saudades da dostoievskiana Nina Berberova [1901-93] e suas mendigas, saudade, talvez, de uma outra Inês Pedrosa.

__________

Beatriz Resende é professora da Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A FILHA DO CANIBAL
Autora: Rosa Montero
Tradução: Joana Angélica d”Ávila Melo
Editora: Ediouro
Quanto: R$ 44,90 (336 págs.)


FICA COMIGO ESTA NOITE
Autora:
 Inês Pedrosa
Editora: Planeta
Quanto: R$ 35 (160 págs.)