Publicado originalmente por Beatriz Resende no Mais!, da Folha de S. Paulo, em março de 2007.

Fuga do real e resistência à diversidade evidenciam crise da dramaturgia na rede Globo

É mote sempre repetido que o imaginário popular, no Brasil, é moldado pela indústria cultural de massa. Leia-se, entre nós, a televisão. A medida dos índices de audiência pratica classificações socioeconômicas buscando identificar os espectadores, ainda, em classes, atualizadas por possibilidades de consumo. Só que, como disse Brecht, os tempos mudam, a realidade pode ultrapassar aqueles que precisam adivinhar o que passa pela cabeça do público, mesmo quando se trata de especialistas em audiência.

De repente, nos damos conta de que mudanças que já vinham acontecendo havia algum tempo surpreendem ao público e aos especialistas. De todos os produtos da televisão brasileira é a telenovela o que se apresenta como peculiar: exportável, de sucesso, sofrendo pouquíssimas modificações desde que se instalou em sua programação horizontal de tal modo forte que a “novela das oito” continua assim identificada, seja qual for o horário em que é exibida. Falar em novela, tradicionalmente, é falar em TV Globo. Subitamente, porém, novela de outra emissora (neste caso a Record) abala esse reinado incontestável. Termina uma, outra se inicia e “Vidas Opostas” continua ofuscando o brilho do lançamento.

Cabe pensarmos nesse fenômeno específico para entender um pouco o que anda se passando na relação entre os supostos formadores do imaginário nacional e o público, não tão passivo como se poderia crer. Sem dúvida, a Globo, desde a criação do gênero telenovela, das séries e minisséries, dispõe de invejável elenco de dramaturgos. Desde os tempos de Vianninha e Paulo Ponte, autores da maior competência são abduzidos, sugados pelos valores, visibilidade, prestígio e outras possíveis vantagens oferecidas pela “Vênus Prateada”, como diria Walter Clark.

O teatro brasileiro sofre com isso, sem condições de concorrência com o espetáculo que está ao alcance da mão, dentro da própria casa, em rede aberta, sem custos maiores que a compra do televisor. Se o elenco de roteiristas da emissora hegemônica continua exibindo talentos indiscutíveis, o gênero, porém, vem sofrendo de envelhecimento.

Qual realidade? 

Mais do que isso, o formato indiscutível, o horário permanente exigem para a sobrevivência da telenovela a maior diversidade possível. E aí surge o primeiro problema, que, a meu ver, a nossa velha companheira “novela das oito” vem apresentando: a perda do grupo de Dias Gomes (1922-1999).

A Gomes, responsável por criações originais e peculiares, pelo uso do cômico, do absurdo, da sátira social e da crítica política, levou um acidente. A seus parceiros mais constantes, seguidores de uma proposta tributária do “Organon” de Brecht, a emissora se encarregou de eliminar: Ferreira Gullar e Marcílio Moraes. Perdeu-se, então, significativa parte da diversidade possível. Sofreram os espectadores, sofreu o gênero. Ganhou a poesia, no caso de Gullar, a literatura de ficção e a Record, no caso de Moraes.

Segunda novela que este cria para a emissora, “Vidas Opostas” e o sucesso que obtém apontam para a segunda questão: que realidade, que personagens, que trama desperta o interesse do espectador neste momento? Os conflitos pessoais dos elegantes e suas belas casas, os vestidos e corpos bem cortados? Os dentes absolutamente reluzentes, seja qual for a idade ou situação social dos personagens? As regravações (todas excelentes) dos melhores momentos da Bossa Nova?

Tudo isso é apresentado enquanto o pau está comendo do lado de fora e o som toca alto funk e rap, da “comunidade” aos condomínios de luxo? É isso que não se sustenta mais. O autor de “Vidas Opostas” declarou que sua novela se inspirou “em fonte clássica, “Fuenteovejuna”, de Lope de Vega, primeira obra da dramaturgia ocidental a ter o povo como protagonista”.

O núcleo pobre deixa então de ser coadjuvante, ocasião de lançar um novo cantor popular ao agrado dos subúrbios ou recurso para preencher a quota de negros indispensável. Fala forte, toma conta da trama. O uísque é substituído pela cachaça, a violência rola solta, os dentes, decididamente, não brilham artificialmente.

Longe estou de defender o realismo como forma de arte a ser privilegiada. Porém, se é para fazer televisão, não dá para ignorar a realidade e, mais do que isso, recusar-se a conhecer a cidade real, aquela em que a periferia já deixou de ser espaço distante que a câmara apresenta depois de cruzar montanhas e viadutos, numa bela visão de uma cidade de cartão-postal.

Para construir ficção e arte, hoje, é prudente que o criador se deixe impregnar pelo que anda acontecendo além do Projac. E ainda nem chegamos à TV interativa!

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Beatriz Resende é professora da Escola de Teatro da Unirio e autora de “Apontamentos de Crítica Cultural” (ed. Aeroplano).