Um romance que se chama “Barba ensopada de sangue” não pode ser mais ou menos. Não pode nem mesmo ser correto, bem escrito, competente. Ou é muito ruim ou é muito bom. Neste caso, o título, porém, é apenas o primeiro dos desafios que Daniel Galera se propõe com esse livraço de mais de 400 páginas.

A qualidade da escrita do autor, a habilidade na construção da narrativa engenhosa e a agilidade dos diálogos têm sido suas características mais apontadas. Confirmados a cada nova obra publicada, tais predicados de um bom escritor garantiram-lhe um lugar segurança em nossa literatura contemporânea. Poderia bastar, mas felizmente não bastou.

Em “Barba ensopada de sangue”, o autor dá um pulo adiante absolutamente supreendente, salto que recusa qualquer acomodação e o lança nas perigosas águas do horror. No fundo desta noite assustadora do terrível, do agônico, do espectral, está o ficcional. A configuração de uma linguagem realista, rica sempre em observações detalhistas, atenta ao visual, é ainda sua forma, sua escolha na condução da narrativa, mas sua impactante opção pela ficção inegociável, sem temer o doloroso ou o enigmático fazem deste um romance muito especial.

É falando mesmo do horror na literatura que Luiz Costa Lima mostra que o texto ficcional não dá as costas à realidade, mas a dramatiza e metamorfoseia: “a ficção transtorna as dimensões do mundo, em vez de pôr o mundo entre parênteses”.

Na obra, um jovem atleta, o nadador ou o professor, após a morte inesperada do pai deixa Porto Alegre, levando a cachorra que o suicida lhe confiara e se muda para Garopaba, litoral de Santa Catarina.

O pai ocupa apenas um breve capítulo do romance e dele o autor faz o primeiro de uma série de fortes personagens. Num momento em que uma das grandes dificuldades que tomam nossa literatura é a criação de personagens de ficção, Galera já começa a narrativa com um êxito.

Não há nenhuma razão objetiva para essa mudança nem o narrador sabe explicar por que deixa sua cidade e vai para lugar desconhecido do litoral turístico às vésperas do inverno. Não reconhecer, porém, é característica do jovem que sofre de raro distúrbio: é incapaz de manter na memória, mesmo a recente, o rosto das pessoas. Desconhece sempre a identidade de quem lhe fala, seu próprio rosto ou o da mulher que amou ontem lhe são sempre estranhos.

No espaço deslumbrante, o vazio, nas praias, no mar, nas montanhas em torno, é o dominante. É ainda o vazio da vida que partilha apenas com a cachorra. Mas na cidade turística, quase abandonada fora da estação, há um mistério que o intriga e que o pai gostaria de ter desvendado: a morte violenta do avô em uma das brigas em que o velho grandalhão se metia. Esfaqueado pelos homens que o cercaram, o corpo porém, nunca foi encontrado.

Ao jovem, que leva entre suas coisas uma foto sua para lembrar do próprio rosto, o pai dissera se parecer com o avô que vivera e morrera em Garopaba. A barba que deixa crescer nesta espécie de exílio a que se recolhe é a mesma barba do avô detestado pelos moradores. Seria real a imagem do velho, seria real sua própria imagem?

E assim se move o personagem pela monotonia da cidade, um cenário que parece sugar as pessoas, porque ali o esperava “a prova para a qual treinou a vida toda”, o confronto com o horror, com o risco de morrer sem ver que está morrendo; mas, nessas horas, “a imaginação pode ser uma aliada”.

No romance, assim como não há metáfora banal e não há verossimilhanças realistas, também não há consolo. Até a última página.

Pelo espaço construído — onde reconhecemos o mundo pelo qual nos movemos — há a incapacidade de começar ou terminar de viver a vida naturalmente, há o desalento e a tristeza de se morar num lugar porque não há nenhum outro lugar em que se queira viver e há a imortalidade, só possível à ficção. Aí está o horror.

Como diz a jovem pesquisadora que desiste de compreender a cidade: “A beleza aqui é muito verdadeira, tão verdadeira quanto o sofrimento. A beleza é tão verdadeira quanto a degradação”.

Depois de todas as discussões recentes sobre o estado da arte da literatura brasileira contemporânea, especialmente a praticada pelos jovens escritores, a competência e maturidade que o romance de Daniel Galera revela não me parece ser resultado apenas de seu próprio percurso, embora também o seja. As discussões reiteradas sobre o que vem sendo produzido acaba, de algum modo, repercutindo na produção artística. Não falo apenas da crítica, seja ela “acadêmica” ou jornalística. Falo de convívio, de troca e até das disputas que mobilizam a “República das Letras”.

O aumento do número de escritores, as festas literárias, coleções e revistas, a ampliação dos horizontes geopolíticos de jovens criadores que se movem não mais nos centros mas também nas periferias, dentro e fora das cidades, os diversos suportes que recebem os textos são fatos novos e merecem ser considerados até mesmo quando falamos de um determinado autor.

Acreditar que literatura, ou arte em geral, se faz unicamente em movimentos isolados, em “descobertas” puramente individuais, seria acreditar que ainda existe o gênio romântico no momento das trocas globais.

Um Machado de Assis só não faz verão nem literatura. Se quisermos uma literatura forte, expressiva, capaz de sobreviver às dificuldades de ser escrita em português, é preciso apostar na formação de uma massa crítica, isto é um conjunto amplo, constante, consistente de autores criando ao mesmo tempo.

Desse conjunto de produtores, queiram ou não as vaidades mútuas, deve participar a reflexão teórica, não a meramente judicativa, mas a que é fruto, também ela, de subjetividades e de repertório acumulado.

Otimista inveterada, creio que a jovem ficção contemporânea está chegando a uma dentição mais adulta. A seleção da revista “Granta” acrescida de outros escritores como Paloma Vidal e Ana Paula Maia pode ser exemplo.