Publicado originalmente no Mais!, da Folha de S. Paulo, em maio de 2007.

Hegemonia americana no imaginário coletivo sofre revés após GM perder a liderança do setor para a Toyota

Nas últimas semanas, os jornais que costumo usar para forrar a gaiola dos periquitos, justamente aqueles que prevêem o destino da economia mundial, a situação do império e de suas colônias, o valor do dólar e outras questões de menos importância, chamaram minha atenção pela narrativa de curioso combate.

Na histórica semana de 24/4/2007, a Toyota Motor Corporation, com sede em Toyota, próximo a Nagoya, na região central do Japão, superou em vendas a General Motors Corporation, montadora americana, uma transnacional com sede em Detroit, EUA. Não sei bem por que, mas sorri. Soava como a vitória dos mangás!

Exercendo minha atuação como especialista em generalidades, ocupação a que me dedico em certos fins de semana, comecei a desenvolver ilações de tal fato inédito. Se conhecesse pessoalmente Toni Negri e Michael Hardt, os autores da importante reflexão sobre a nova ordem política da globalização publicada no volume “Império” [ed. Record], gostaria de ter ligado para eles – pelo Skype, é claro.

Como não os conheço, fiquei mesmo conversando com o velcro de minha blusa.

Na continuação das notícias sobre o tema, fiquei sabendo das férias coletivas e possíveis demissões na GM do Brasil e do sistema projetado pela Toyota para impedir motoristas embriagados de dirigir. O mais interessante, para meu repertório, foi mesmo o aprofundamento do sentido do termo “toyotismo”: forma de produção em times pequenos, com um líder, visando a evitar todo tipo de desperdício.

Tempos modernos

Ou seja, o famoso “fordismo” já era. Lembra-se de Charles Chaplin em “Tempos Modernos” e a anomia da cadeia de produção, mecanizando os movimentos do operário?

Pois foi a partir da cena emblemática que o imaginário americano surgiu diante de mim, de Chaplin a Ridley Scott até chegar ao recente “300″, filme de Zack Snyder, realizado a partir dos quadrinhos de Frank Miller em que nosso Rodrigo Santoro tem seu belo rosto colado a um corpo poderoso, criado em computadores, o do estrangeiro.

O que isso tudo tem a ver? Não me parece difícil juntar as partes desse videogame.

GM significa carros, aço, riqueza abundante, desperdício. Automóveis, velocidade, auto-estradas são ícones do modernismo americano, mas não só deles. Se os carros forem grandes, poderosos e velozes, farão com que nos aproximemos mais do imaginário americano veiculado por muitos anos.

Chegamos então ao excelente “Thelma e Louise”, realizado por Ridley Scott em 1991.

Numa espécie de “road movie” feminista, as duas heroínas tentam fugir da mesmice e do autoritarismo masculino atravessando o país num velho Thunderbird conversível. Ao poder do aço dos automóveis junta-se outro inevitável ícone no machismo americano: as armas.

Mais longo que a pistola, o fuzil. Mais fálico, mais americano, mais destruidor. Só restará às duas jovens pisar no acelerador e atirar-se num precipício. Thelma diz: “Não vão nos pegar”. Louise pergunta: “Tem certeza?” Thelma responde: “Vamos nessa!”

A única liberdade possível é o abismo à frente delas.

Choque

Já “300″ é tão divertido quanto politicamente incorreto. O gênio de Frank Miller inspira os vermelhos, o sangue respingando até no espectador. O aleijado é traidor, a mulher troca seu corpo por favores, os estrangeiros não prestam. Os covardes inimigos persas são iranianos hoje.

Na vida real, é claro, protestaram contra o filme, mas é tudo ficção, quadrinhos, filme.

Esparta, fundamento da civilização ocidental, é um espaço de guerras sanguinárias. O ideal da democracia grega tem como intérprete um político corrupto. Esse é o berço de nossa civilização, de nossos valores, de nossas tragédias.

A guerra terrível iniciada por 300 guerreiros conduzidos por um líder autoritário e enlouquecido pelo cheiro do sangue (muito vermelho) na verdade é um excesso de cabeças cortadas e, sobretudo, muito metal em choque: escudos, lanças e espadas, tão fálicas, ou mais, quanto os rifles contemporâneos.

Manobra

Espadas, lanças, rifles. Carros, carruagens, veículos em velocidade. Se acrescentarmos o hambúrguer do McDonald”s, quase todo o imaginário americano estereotipado estará aí identificado, insuflando a imaginação de jovens universitários, americanos ou asiáticos.

É aquele mesmo imaginário contra o qual alguns intelectuais, artistas, professores universitários e líderes dos movimentos sociais vêm se batendo desde os anos 1960/70. Feministas, gays, negros, críticos da cultura, seguidores de Arthur Miller [dramaturgo, 1915-2005], Basquiat [artista plástico, 1960-88] e de performers diversos.

Vários deles apontados como excêntricos pelos vizinhos por terem a estranha mania de comprar carros japoneses: menores, fáceis de manobrar, mas desprovidos do importante ícone americano: GM.

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Beatriz Resende é professora da Escola de Teatro da Unirio e autora de “Apontamentos de Crítica Cultural” (ed. Aeroplano).